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Andando em círculos - Tyrone Menezes

Cicloviagem Relato Completo


* Organizei todos os relatos em apenas um, para organizacao

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A bike e os Aeroportos

Na madrugada, o aeroporto inteiro sò pra mim

A via sacra entre 3 conexoes e 4 aeroportos foi de matar. Em BH o atraso na saìda. No Galeao molharam a minha caixa de papelao com a bike e abriu um buraco do tamanho de uma panela. Tive medo que roubassem as coisas que eu enfiei junto da caixa da bike. Pra variar o traslado do aeroporto de Ezeiza para o aeroporto Aeroparque em Buenos Aires foi foda. Com o volume de carga que levava, somente os proprietàrios de Vans queriam fazer a o traslado de cerca de 45km mas cobrariam o salgado preco de 150 pesos.O Aviao do Rio ate Buenos Aires havia atrasado em 1 hora e meia e eu estava a 2 horas de meu proximo voo e ainda precisaria atravessar inteira a cidade de buenos aires... consegui falar com o Sr. Jorge que consentiu em colocarmos a caixa da bicicleta em cima do seu carro e que nao tinha bagageiro. Ele amarrou com cordas aquela caixa em cima do carro e negociamos o preco de 60 pesos e fomos embora voando p nao perder o voo. Por um momento fiquei com medo de ser um traficante de rins ou pancreas mas na verdade eu estava temendo por todos os meus orgaos internos, mas mal sabia eu que a maior emocao estaria por vir.

 

Em Bariloche

Ao desembarcar em bariloche, apos todos os passageiros do meu voo retirarem suas bagagens, eu ja tinha retirado 2 dos meus 3 volumes. Somente a bicicleta nao havia chegado. Aì quando o cara falou que ja haviam desembarcado todos os volumes eu gelei ate a alma e pensei na merda q isso ia dar. Fui ao stand da Austral Linhas Aèreas para comunicar o fato. A atendente logo localizou minha bagagem e disse que nao foi possivel embacar naquele aviao viria no proximo voo, ou seja minha bicicleta chegaria dentro de 1 hora. Sentei e esperei  ate o voo chegar. A bike estava là a caixa toda desmilinguida e torta, mas eu fiquei aliviado e logo fui procurar algum lugar pra trocar de cueca ou entao comprar uma cueca marrom p aliviar o susto.

Hostel Pudu, ou seria Vudu ?

Conheci um casal de brasileiros no aeroporto que me ofereceram uma carona atè a cidade onde conheciam um albergue muito bom e barato. Muito resistente, aceitei mas fiquei triste pq montar a bike no aeroporto e ja sair pedalando è 90% da alegria do desembarque. Me deixaram na porta do albergue PUDU e seguiram seu caminho. Quando me aproximei na porta havia a inscricao "no hay lugar, sorry we are full" nao deu pra gritar pelos brasileiros da carona novamente e la estava eu, com aquele monte de coisa na mao e nao dava pra carregar pra lugar nenhum. O Mario do albergue se ofereceu pra guardar minhas coisas enquanto eu procurava outro lugar, mas nao confiei e resolvi montar a bike no meio da rua mesmo em frente ao proprio albergue. Tava correndo pra nao anoitecer pq ja eram 5 da tarde e a temperatura tava em 12 graus se anoitecesse eu tava na mao do calango.

 

Olha a temperatura com o sol "quente"


Foram umas 3 horas pra montar tudo. Bike trailer e bagagem. Entao sai pedalando pela cidade para procurar um lugar. Isso aqui tà infestado de mochileiros, putz procurei em pelo menos uns 20 albergues e todos cheios ou com precos exorbitantes. Aqui hospedagem è muito cara. Nao è possivel encontrar albergue por menos de 40 pesos.  Acabei ficando em um quarto com umas 10 camas e jà uns 7 caras por là. Precisava de uma boa noite de sono, pra juntar energia, mas nao foi possivel ficar em um hotel com um quarto privativo. Ja havia me acostumado com a ideia de ficar ali mesmo naquele albegue lotado e sai pra comer e conversar com minha esposa. Quando voltei havia um casal no rala e rola no quarto, o cara so parou pra perguntar se eu me importava, disse que náo, mas logo depois que se foram peguei minhas coisas e montei barraca no quintal do proprio albergue.

 

A noite do calafrio

Se de dia a temperatura oscilou entre 12 e 16 graus, a noite despencou. Acabei de montar a barraca jà no escuro e registrei a temperatura de 10 graus as 22:00 na hora que fui dormir. De madrugada ventou muito e esfriou muito mais. os 2 sacos de dormir nao foram suficientes e tive que colocar mais umas 2 pecas de roupa e so assim consegui dormir. Levantei cedo pra me transferir pra um hotel de verdade onde poderia deixar a bike segura pra rodar pela cidade pra terminar os preparativos, organizar e dividir o peso da bagagem e comprar comida.

10ºC as 22:00 de madrugada foi bem pior


Ps. Apesar da beleza natural to odiando essa merda aqui e jà to doido p cair na estrada. Nao se pode acampar em lugar nenhum a nao ser nos campings lotados e caros. Tudo muito caro, com excessao da gasolina e da carne. Hoje comi um prato de bife de chorizo com fritas por 10 Pesos tipo 7,50 reais. To me acostumando com a lingua, e por enquanto estou arranhando um portunhol que todos acabam entendendo.

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Bariloche / El Bolson / Esquel 318km

Saindo de Bariloche


Lago Gutierrez

A Saida de Bariloche foi difícil pq sai as 08:00, e sempre o primeiro dia è o mais preguicoso, com 10ºC foi bom encarar a subida de 8km para me aquecer, e comecei a despencar em direcao a regiao dos lagos. O Frio aumentava nas descidas mas dava para me aquecer de novo nas subidas. A regiao e muito bonita com os lagos e ha muitos campings na beira da estrada. Segui um ritmo bom, vislumbrado com a paisagem parei demais para bater fotos. O Sobe e desce continuou ate a hora do almoco e a partir dali o clima comecou a esquentar ate alcançar os 22 graus.


Lago Mascardi

Na parte da tarde peguei um vento lateral que insistia em me empurar na direcao da estrada, quando passava um carro ao meu lado tinha que ir para o acostamento de ripio (cascalho solto) para evitar que o vento me jogasse para cima dos carros. O que vem mais me impresionando ate agora na estrada é esse vento. Uma hora tirei  a capa do tripé que venho levando e em um segundo o vento levou a capa q tem um peso considerable uns 300 metros morro abaixo. Não ia voltar para buscar aquilo nem a pau, de qualquer forma foi um peso a menos para carregar.

Chegando em Rio Villegas

Após passar por uma barreira policial fui informado que faltavam cerca de 45km para completar a estrada atè El Bolson e mais a frente eu teria uma descida grande de 20km. Foi um animo extra e acabei chegando em El Bolson apos 147km  por volta das 19:30. Diferente de Bariloche, gostei bastante de El Bolson tem cara de cidadezinha de interior. Ao chegar á praça, havia uma peça de teatro sendo exibida ao vivo e de graça, peguei o finalzinho. Acabei ficando em um camping e a noite comprei 2 nhoques, um para jantar o outro seria o café da manhã.

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El Bolson – Esquel 171km

Epuyen

O Dia prometia muitos km, entao saí as 05 da manha dessa vez. Por aquí amanhece muito cedo proximo das 05:00 e anoitece próximo das 22:00. Nunca havia pedalado 170km nun só dia, entao comi o nhoque no café da manha e comprei 2kg de frutas para o dia longo.

A primeira etapa de 40km foi bastante tranquila, e as 08:30 da manha parei para descansar na cidade de epuyen, conversei com um brasileiro que tomava café da manha no posto de gasolina e tambem ia para Esquel. Me tranquilizou dizendo que os 130km ate Esquel eram de estrada plana e que eu podia ficar tranquilo (Ledo engano). Mas nao havia nada na estrada nesses 130km. Eu deveria levar muita água e comida.


Retas Interminaveis da Ruta 40

Cometi um erro grave em subestimar o caminho e fiquei conversando com o pessoal brasileiro até as 11:00. Acabei tomando uma cerveja artezanal "La Rua 40". Eles estavam em uma van e perguntaram se eu nao queria carona. Pelo orgulho, por achar que o caminho seria fácil e por decidir que só pegaria carona se nao estíiesse em condicoes de pedalar, decidi agradecer e seguir em frente.

Em Epuyen acabava a região dos lagos, e entao eu entraria agora nas planiícies. Logo no principio o vento contra me impedia de passar dos 10km/hora e aos 15km pedalados decidi esperar 1 hora para ver se o vento iria parar. A cerveja contribuiu na preguiça que eu sentiia. O Vento não parou e decidi continuar. Tinha saido com 8 litros de água pela manha e faltando 70km eu já nao tinha agua, e nem as frutas que havia comprado, porque para não gastar dinheiro decidi comer as frutas no encontro com os brasileiros pela manhã onde poderia ter comido qualquer coisa no bar. Segui decidido descansar a cada 15km pedalados. O vento resolveu ajudar e parou. Ja fazia calor por volta de 25 graus. É nao havia um córrego sequer para pegar agua. É impresionante a paulada psicológica que levamos ao perceber que estamos sem água. A nossa mente vai repetindo o mantra: Àgua....Àgua....Àgua.... A partir daì fui me arrastando, e parando de 5 em 5 km para descansar. As longas retas tinham algunas uns 10km ou mais. E era angustiante nao cegar no final delas. Sem água e sem comida não seria inteligente parar por ali e acampar.

Pedalando e cantando e seguindo a canção

Anoiteceu faltando 15km para chegar e passei por um posto policial, onde já havia decidido ficar para passar a noite. Mas o policial me disse pra sorrir, porque eu já havia chegado e era somente 1 subida para cegar a Esquel. Sentei e bebi toda a água da geladeira dos policiais. Cheguei em Esquel estava tão cansado e sem paciência para procurar um lugar barato para ficar e fiquei no primeiro que encontrei. Quando estamos cansados cometemos erros inocentes e imbecis, poderia ter ficado em epuyen e feito os 130km no dia seguinte, mas querendo ganar um dia, acabei seguindo em frete e o resultado è que me alimentei mal, me hidratei mal, Nao passei protetor solar por causa da pressa, e hoje estou com o rosto queimado pelo sol e queimado pelo frio. O dia que ganhei com a pressa, eu perdi porque acordei muito mal hoje. Cheguei a noite e dormi sem comer e sem tomar banho p causa do cansaço. Só tive ânimo pra beber água da torneira, porque nem pra subir as escadas até a cozinha eu tive coragem.

Hoje então tirei o dia para descansar, para consertar um problema na bicicleta (e ir a uma casa de cambio. No dia anterior, após um tombo, a pastilha do freio a disco dianteiro, esta pegando demais, entao estava sem freio dianteiro)

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A Terra é Plana

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Esquel - Tecka


O trajeto agora tem se tornado bastante tranquilo. Uma planicie que nao acaba mais. O pedalando 100% do tempo tenho que tomar cuidado com o joelho que comeca a reclamar um pouco. Talvez seja o peso do trailer ou entao o pedal egg beater. O que vem tornando o caminho um pouco mais tortuoso é o maldito vento.

As vezes no silencio na noite

Quando ele bate contra, é impossivel pedalar a mais de 10km/hora. Quando bate de lado, algumas vezes em uma rajada mais forte, joga a gente no chao. E quando bate a favor dá um refresco. Seguindo o conselho dos pedalantes locais, o vento contra comeca por volta das 10
da manha. Entao tenho saido bem cedo, por volta das 05 pra aproveitar o maximo enquanto o vento esta a favor. Por volta do meio dia, o vento incrivelmente da uma parada, pra comecar a soprar contra durante toda a tarde. Nao ha como enfrentar a natureza, entao quando o vento esta muito forte, estou programando o meu descanso da hora do almoco por volta das 14 pra voltar a pedalar la pelas 15:30.

De Esquel a Tecka foi bastante tranquilo, onde o rendimento caiu um pouco onde a estrada estava em obras, e tive que trafegar pelo acostamento de ripio. O trailer deixa um pouco a desejar quando nao esta no asfalto, talvez pelo pneu muito borrachudo. Os operarios me pararam em um trecho pra dizer que eu poderia trafegar no meio das maquinas no asfalto novinho em folha. Logo voltei pro acostamento, pois o asfalto ainda estava impregnado de piche, que mais parecia cola tava pior e jogando aquela coisa preta nas minhas pernas e na bagagem.


Pediu pra parar, parou

Cheguei em Tecka as 13:30 e o cenario parecia de uma cidade fantasma. Na Argentina, costumeiramente todos os estabelecimentos fecham depois do almoco para "La Siesta"e vai tipo das 13:00 ate as 16:30 em media. Temos que nos habituar com os costumes locais, mais chegar roxo de fome em uma cidade e nao achar uma biboca aberta pra comer e foda.


"Sou o mundo, sou Minas Gerais"


Ha somente uma rua na cidade e tudo fechado, nao ha camping, hotel ou albergue. Dei uma chochilada na praca esperando as lojas abrirem. Entrei em um restaurante e comi 6 empanadas e 2 litros de coca. Montei meu acampamento atras de uma casa abandonada junto ao posto de gasolina pra escapar do vento e do frio.


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Tecka - Gobernador Costa

Deu uma vontade de roubar essa plana, pena q nao tinha uma chave 13

Apesar de ter dormido cedo, nao consegui acordar cedo tambem, e me levantei por volta das 10:00 da manha, durante a noite a barraca nao aguentou o tranco por causa do vento e tive q colocar um pedaco de pau para impedir q o teto se amassasse com o vento. Como o tempo estava fechado, coloquei um pedaco de uma lona preta para cobri-la caso chovesse. Se soubesse do que aconteceria, eu teria me despedido com carinho dela, pq eu nunca mais vi essa lona. Deve ter voado durante a noite e nesse momento deve estar viajando à alguns dias na minha frente.

Comi umas galletitas e segui estrada as 12:00. O dia foi o mais tranquilo atè entao fiz somente 2 paradas para comer frutas nos 87km entre Tecka e Gobernador Costa, onde cheguei as 17:30. O vento deu uma maneirada geral entao foi um dia para levar o pedal em ritmo de passeio e tirar bastante fotos. Em Gob. Costa fiquei no hotel do Sr. Jair, ou talvez devesse chamá-lo de Sr. Charuto, pois fumava o tempotodo. O hotel inteiro fedia a charuto mas o preco era camarada e estava incluso El Desayuno (o cafe da manha)

O trecho do dia seguinte prometia quase 200km e queria aproveitar a parada do vento para fazer 2 dias virarem 1 dia. Dormi as 18 para levantar as 03 da manha. Queria tambem correr contra o tempo pq ameacava chover e a noticia era de chuva em Rio Mayo.


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Gobernador Costa - Rio Mayo

Acordei as 03:00 com aquela preguica natural. Acho que vou programar a proxima viagem para pedalar 1 dia e dedicar 2 dias a esbornia e ocio. Mas meu tempo e meu dinheiro estao ficando curtos e tinha que prosseguir. Quando saio cedo, deixo pra descansar somente quando o sol nasce, e pelo pouco movimento de veiculos e pelo restinho de lua cheia, ainda nao precisei usar farois. Uso somente o pisca traseiro para caso algum veiculo passar me veja de longe, hoje tambem foi o dia de me ligar das coisas certinhas, largei o capacete de lado coloquei uma touca de la e fui o tempo todo ouvindo musica. Tim Maia foi o da vez. O ritmo do sindico nao nos deixa perder o rebolado e fui cantando alto como um doido pela ruta.

Como jà dizia Tim Maia: "Pneu furou, acenda o farol"

Logo o dia amanheceu, o ceu ja estava preto e comecei a temer pela chuva. Com 14ºC se chovesse nao seira muito agradavel pedalar. Por aqui nao ha arvores grandes pra se esconder, somente arbustos, flores e mato. Tudo com no maximo 30cm de altuma. Nao ha bares, postos de gasolina entre as cidades nem nada assim. Entao decidi acelerar para tentar chegar o mais rapido possivel, ja que seriam 230km ate Rio Mayo, mas sem vento e com o terreno plano era possivel fazer. E as 09 da manha eu ja tinha 90km rodados.

Un perro me trapó

Foi um dia das mais belas paisagens ate entao. Mas em uma parada para comer, decidi ver as fotos do caminho e meu segundo memory stick da camera digital parou de funcionar. Perdi um dia inteiro de fotos, e nao havia a menor possibilidade de comprar outro em Rio Mayo que è uma cidadela, pensei pelo lado bom, melhor perder esse que continha pouca coisa que perder o outro com todas as fotos. Mas como era um cartao de 16GB custou uma grana consideravel e fiquei um pouco chateado.

Aí choveu, e esfriou... a temperatura caiu dos agradaveis 18ºC vespertinos para 12º com aquela agua gelada escorrendo e fazendo cosquinha na cacunda. O Anorak aguentou bem os primeiros minutos, mas eu estava molhado de suor por baixo e com as pernas geladas. E Foi assim por umas 2 horas e meia pedalando na chuva e morrendo de frio. Pensei na estancia Nueva Lubecka onde apanhei agua e poderia ter ficado ha uns 60km atras, com frio e tremendo deixei a vergonha de lado e comecei a pedalar com o polegar estendido sempre que passava um caminhao ou onibus.

Com 185km as 16:30 passei por uma empreiteira que estava recuperando o asfalto, e pude me abrigar do frio em uma residencia daquelas que parecem um container. Me deram uma toalha pra me secar e disseram que estava chovendo ha 2 dias e nao tinha previsao de passar. Como nao podiam trabalhar com o asfalto sob chuva, passavam o dia jogando baralho e aposto que estavam torcendo p chuva durar mais uma semana. Me disseram que o onibus passava para recolher os operarios as 06:00 e eu poderia ir com eles atè Rio Mayo.

Em Rio Mayo comecaria os temidos 800km de ripio (aquele cascalho que ja falei) nesse trecho passaria somente por Perito Moreno atè chegar em El Calafate. Teria que levar suprimentos e agua para 4 ou 5 dias. E no ripio na chuva eu nao queria continuar. Tinha decidido entao esperar por 3 dias atè a chuva passar, mas iria atrasar demais meu prazo com minha esposa.


Mudanca de planos

A decisao mais sensata entao foi seguir o conselho dos operarios, e pegar um onibus ate ou outro lado da argentina, na costa do atlantico até Comodoro Rivadavia e seguir descendo 600km rumo ao sul até Puerto Santa Cruz, onde poderia retornar a Ruta 40 no final do ripio e continuar pelo asfalto. Comodoro è uma cidade grande, poderia comprar outro cartao de memoria para voltar a tirar fotos.

Entao foi esse o destino que tomei, o bom de viajar sozinho é que podemos tomar qualquer tipo de decisao ao nosso bel prazer.

Entao, vamos a la playa.

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The Wind of Change

"...Que minha solidão me sirva de companhia.
que eu tenha a coragem de me enfrentar.
que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo." Clarice Lispector


A alteracao no roteiro


Como expliquei antes, tive que abandonar a Ruta 40 por causa do longo trecho de ripio (800km) que iria enfrentar. Se tivesse mais tempo disponivel, eu esperaria 2 ou 3 dias a chuva parar para continuar, mas meu tempo esta curto e tenho continuar.

Atravessei lateralmente a Argentina rumo à costa do atlantico para descer pelo asfalto os 800km que eu desceria no ripio pela ruta 40. Juntando o ùtil ao agradavel, poderei conhecer os pinguins.

Comodoro Rivadavia

Fui na confianca de que o vento mudaria durante a noite. Ledo engano



O Onibus de Rio Mayo atè comodoro rivadavia levou aproximadamente 4 horas pra chegar. Estava cansado devido ao pedal longo do dia, e estava sem tomar banho desde a noite anterior. Talvez por esse motivo ninguem sentou ao meu lado no onibus, entao pude viajar bem esticado e confortavel. Desci na rodoviària com toda a minha tralha de viagem, o que chamou bastante atençao. Eram 00:00 e havia decidido dormir em Comodoro e passar 1 dia descansando para seguir viagem.

Comodoro è uma cidade grande, com cerca de 400.000 habitantes. E logo que desci fui cercado de curiosos pra saber de onde vinha, pra onde ia e tal. Logo os curiosos deram lugar aos bebados de rodoviària e aos malandros. Tal situacao me incomodou quando um sujeito pediu pra dar uma volta com a bicicleta com tudo em cima para ver o peso, consegui me desvencilhar dizendo que iria primeiro ao posto calibrar os pneus. No caminho pesquisei alguns hoteis, todos muito caros, com as diarias por volta de 150 reais. Nao havia campings e os albergues estavam lotados.

No posto de gasolina, consegui um pouco de sossego, mas os bebados eram atraìdos atè a mim e minha bike-caminhao. Foi aí que tomei a decisao de partir de madrugada mesmo para enfrentar os 85km de Comodoro Rivadavia atè a proxima cidade de Caleta Olivia.

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Comodoro Rivadavia - Caleta Olivia

As 01:00 da manha peguei a Ruta 3 em direcao a Caleta Olivia, assim que saí do perimetro urbano da cidade troquei de roupa no acostamento e aprontei meus farois e backlights. O Clima estava ameno, com 20ºC e nao precisei me agasalhar.



Assim que saì da cidade fui castigado pelo vento, muito mais forte e imprevisivel que na ruta 40. Dessa vez ele impedia de pedalar mesmo que lateralmente, forcando a bike 2 metros pra cada lado em cada rajada. Como estava de madrugada e o transito estava bem vazio, decidi continuar, mesmo que a passos lentos.

Eu menosprezei o cansaco de ter pedalado 185km na parte da manha e ter viajado de onibus por 300km. E mais uma vez me arrependi de uma decisao por impulso, mas com 30km ja nao dava pra voltar atras. Consegui descansar um pouco no posto policial na divisa dos estados de Chubut e Santa Cruz, onde fiquei conversando por uns 40 minutos com o unico policial de plantao. Apos o descanso e uma coca gelada, pintou o animo de pedalar os 50 km restantes ate Caleta Olivia onde poderia com sorte, presenciar o nascer do sol no atlantico.

O restinho de lua cheia ajudava bastante e com o vento eu segui a uma media de 10km/hora. Decidi nao lutar contra o vento, iria a 10km independente do vento ou nao. No caminho passado eu ja havia visto inumeros coelhos marrons atravessando a pista e mais de uma centena deles atropelados na pista. Mas aqui parece uma praga, de longe o farol ilumina os olhos dos coelhos, que aos montes ficam bobeando em cima do asfalto, talvez pra se aquecer ou entao pq sejam burros mesmo.

Faltando 5 Km pra chegar parei pra descansar e acompanhar o alvorecer patagonico no atlantico sul. Foi o premio pelo cansaco de ter pedalado durante a madrugada. Uma imagem de tirar o chapeu, o ceu laranjado contrastando com o mar ainda cinzento....

Valeu a pena ter pedalado toda a madrugada no vento frio

O mastro da bandeira é de aco, vejam como esta envergado

Na entrada da cidade, presenciei dessa vez o atropelamento de um coelho ao vivo. O carro passou e ploft o coelho ja era... qdo passei pelo local, o coelho ja nao estava mais entre nos. Da proxima nao vou perder a oportunidade de fazer um Conejito Asado ali mesmo no local.

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Caleta Olivia - Fitz Roy

O Descanso em Caleta Olivia recarregou minhas baterias. Estava disposto a pedalar o maximo em 1 dia. Iria aproveitar as primeiras horas da manha com o vento mais fraco pra fazer uma km maior. Nesses dias que a gente bate no peito e diz "vou fazer isso" a gente se sente invencivel. Nesse dia bati meu recorde 205km em um dia.

Arredondando 205km em um dia

O dia foi de vento tranquilo, e nao incomodou. As 10:30 passei pela cidade de Fitz Roy, como tinha pedalado apenas 60km ate entao, decidi seguir para os 130km que me separavam do proximo posto de gasolina.

 

Os primeiros 50km foram pela costa. Mar azul e protegido dos ventos

Segui pelas retas interminàveis de 15, 20km. O Que no principio parecia belo, se tornou bastante monotono, planicies ate onde a vista alcanca, sem arvores, sem montanhas, sem lagos ou seja sem vida. Apenas arbustos de 30cm de altura por toda a paisagem. Passei por leitos de rio secos e lagos tambem secos. Com 130km estava economizando agua pq ja sabia que levaria 2 dias para chegar ao proximo posto. Apareceu um lago de agua salgada que de nada me adiantava.

o bicho pega quando a estrada entra pro interior do continente

Olha o rango aeee Laranjas partidas em 4

Com 195km rodados, ja escurecia e decidi procurar um lugar para me abrigar do vento so que nao havia nada naquela planicie isolada. Entao apareceu um rolo de tubos a beira da estrada, que estava em obras e resolvi montar ali mesmo meu acampamento. Eram 21:30 e ja faziam 14ºC E o vento castigava pra valer. Com muito sacrificio, consegui montar minha barraca contra o vento e ajeitei o rolo de tubos para protege-la do vento e do pó.

 

Foi uma noite muito fria, e o vento levava muita poeira pra dentro da barraca, amanheci com o colchao cheio do que parecia canela em pó. A garganta ja estava incomodando por causa da poeira, o que me fez beber muita agua durante a noite. De manha estava com a garganta irritada e o corpo ja doendo o que indicava uma gripe ou resfriado.

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Tres Cerros - San Julian

O despertar do Ninja Patagonico interior. Agora eu era invencível !

Acordei cedo pra fazer os fazer restante que me separava de San Julian. Com o corpo dolorido, tomei um paracetamol e continuei em frente. O dia se seguiu monotono, mas estava rendendo bem no pedal. As 11:00 passei por um posto de gasolina. Era a chance de tomar a sonhada coca-cola gelada que estava na minha cabeca ha 2 dias. Mas ainda era cedo pra parar, entao decidi continuar até San Julián.

Sozinho com meus pensamentos. Seriam 3 dias duros e desertos.

Comecou entao a chover, e voltei pelos poucos metros que havia pedalado pra sair do posto de gasolina. E Esperei por 2 horas ate parar de chover e secar. Estava com preguica de embalar toda a bagagem em sacos plasticos.

Na tempestade de areia, eu rezava pela chuva.

 

Na chuva eu me abriguei e rezava pela tempestade de areia.

A espera me atrasou um pouco, e quando ja anoitecia encontrei um restaurante na beira da estrada. Como estava com fome, pq durante o dia tinha comido apenas algumas laranjas decidi jantar e ficar por ali mesmo.

Pela Manha, 10ºC. No Almoco 35ºC. A Tardinha 10ºC

O pessoal do restaurante me ofereceu para dormir no corredor que dava acesso ao escritorio e nao pensei 2 vezes e me ajeitei. Nao havia como tomar banho, pois só la fora na mangueira e naquele frio eu nao tive coragem. Quando perguntei pela bicicleta, me indicaram o local onde fazia a troca de oleo. Eu estava cansado e nem me preocupei quando fui dormir. Coloquei o carregador de pilhas da tomada a 1 metro de onde eu dormia. Apesar de ter gente passando de 5 em 5 minutos, eu apaguei como um defunto, ali mesmo no chao.

 

Meu cafofo. Tinha calefaçao e era protegido do vento. Perfecto

Acordei as 5 e a primeira coisa que fui fazer foi buscar o carregador de pilhas e vi que nao estava mais là. Era muito cedo e fui questionar a unica pessoa que encontrei no local e ela disse nao ter visto e nao sabia. Esperei mais uma hora ate chegar outros funcionarios, e eles disseram que provavelmente alguem do turno da madrugada guardou ou algo assim.

Nao podia ficar esperando um dia inteiro por causa do carregador, mas ele havia me custado US$ 35 em buenos aires e carregava as pilhas em 1 hora. Eu vi que nao estava adiantando nada a minha reclamacao e acabei deixando pra lá. Na raiva eu deveria ter comprado pilhas novas ali mesmo, mas decidi que nao deixaria mais nenhum centavo ali. Pedi entao pra ir ao banheiro, e dei uma borrocada legal e nao dei descarga.

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San Julian

 

Demarquei territorio junto aos adesivos do mundo inteiro. De bike, sò o MTB-BH. Tá dominado

De cabeca quente decidi seguir caminho, e por algumas vezes tive vontade de voltar la e quebrar o pau c todo mundo. O pior ainda estava por vir, no meio do caminho dei falta do meu tripé, e vi que o haviam roubado tambem. Se eu estava arrependido de ter feito a arte no banheiro, agora estava arrependido de nao ter feito mais estragos. Devia ter cagado no chao ou na pia aheuuaheuhae. Mas deixei pra là. Durante o dia coloquei na balanca tudo o que passei aqui na Argentina e com raras excessoes, eles veem em um aventureiro de bicicleta a chance de tirar algum proveito, ou alguma grana. Tomara que mude meu conceito daqui pra frente.

Em San Julian, descobri que nao conseguiria onibus direto para El Calafate. Entao decidi ficar por aqui até amanha e decidir se vou pra Calafate, se vou pra Gallegos de Onibus e de là ate Calafate. Mas isso è assunto pra outro post.

Conclusao

Foram 3 dias muito difìceis. O Cenario fica muito monotono. Passei muita dificuldade por causa do isolamento. O transito de caminhoes comecou a se intensificar. Tenho me recusado a sair da estrada de asfalto para o acostamento de ripio. Isso vem resultando em alguns episodios ruins com os caminhoneiros. No principio achei q buzinavam me dando apoio, mas agora sei que é pra que eu saia da estrada. Aqui acreditam que bicicletas so devem andar no acostamento. Agora quando buzinam, eu faco ouvido de mercador e cara de paisagem. Dou um largo sorriso, estendo a mao e grito um "VAI TOMAR NO CU". Sofri de dia com muito calor, e de noite com muito frio. O Tempo aqui è muito doidao, as vezes tenho as quatro estacoes do ano em um dia só.  Entre um posto de gasolina e outro cheguei a rodar quase 250km sem absolutamente nada. 12Litros de agua e 4kg de frutas sobrecarregaram um pouco o trailer e apesar do terreno totalmente plano, tive alguma dificuldade com o peso extra. Encontrei com 2 holandeses que faziam o mesmo trajeto de speeds. Estavam somente com 1 peca de roupa pra pedalar e 1 peca para passear. Estavam fazendo pela ruta 3 uma media de 350km/dia. wow !!!

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A terra do fogo (ou do gelo?)

"...Coisa que gosto é poder partir
Sem ter planos
Melhor ainda é poder voltar
Quando quero..."

M. Nascimento e F. Brant

Descanso e Recuperacao em Rio Gallegos

Decidindo o que fazer em San Julián, verifiquei que nao havia onibus direto para El Calafate, que somente tem linhas diretas durante a alta temporada (inverno) e de onde poderia continuar pela Ruta 40. Teria que pegar outro onibus por 300kms ao sul pela Ruta 3 até Rio Gallegos e de là seguir até calafate. Entao decidi me recuperar da gripe e aproveitar pra descansar dos dias no deserto em uma cidade grande com estrutura para me preparar para a proxima etapa. E como estava chovendo foi uma boa ficar por aqui.

Em Gallegos a bike estava encostada, mas sedenta pela estrada

Rio Gallegos é a capital da provincia de Santa Cruz, tem tipo uns 100.000 habitantes e è bastante organizada. Em Rio Gallegos tive que gastar uma grana nao prevista com uma injecao para melhorar a garganta e o forte resfriado. Tambem tive que comprar outro tripé, que me custou 3x mais do que o que comprei no Brasil, alem de ser pior, menor e mais pesado. Mas sozinho é impossivel tirar fotos com alguma qualidade sem um tripé, mesmo se somente seja possivel utilizá-lo quando há uma placa ou algo parecido para amarra-lo, pq por aqui com esse vento nada para de pé.

Acabei ficando por 2 dias e 1 noite em Rio Gallegos, por aqui se recusam a aplicar as injecoes no braco, entao teve que ser na poupanca mesmo entao ia ser impossivel colocar a bunda no selim por 2 ou 3 dias.

Pelo menos pude ficar em uma pensao, com um quarto que era do tamanho exato de 1 cama, e pude aproveitar pra descansar e dormir bastante. Coisa que nao é possivel quando acampamos no mato e no frio. Tive alguma dificuldade pois a pensao era muito suja, e por esses lados é normal fumar dentro de lugares fechados. Os cobertores, lencois tudo fede a cigarro. Quando vou a uma lan house, volto impregnado pois todos fumam sem o menor pudor. Infelizmente a moda de parar de fumar ainda nao pegou por aqui. Por causa do frio, até os trailers que vendem comida na rua sao fechados e todos fumam la dentro. E quase insuportavel.

A comida por aqui continua muito cara. A espiriteira á alcool se mostrou extremamente ineficaz nos ventos patagonicos. O Alcool por aqui vendido em supermercados tem cerca de 70% enquanto no Brasil està por volta de 98% e nos postos de gasolina nao há alcool. O dia que fiz um arroz com gasolina, passei a noite me sentindo mal entao nao fiz mais. Por isso quando tenho a oportunidade faco minha propria comida dentro do quarto do hostel quando fico em um. Esqueci de citar nos relatos anteriores mas pra minha surpresa, pasmem: NAO EXISTE MIOJO NA ARGENTINA entao tenho que me virar pra fazer um rango de qualidade. Um simples cafè da manha em uma padaria nao sai por menos de 17, 20 pesos. Uns 15 reais por umas 5 torradas com geleia 1 pao com manteiga com um cafè com leite. Mas o habito de cozinhar dentro do quarto quase me causou uma tragèdia. Deixei a agua pra ferver e me deitei. O quarto era extremamente pequeno, quando ouvi o barulho da agua fervendo, me levantei e derrubei a espiriteira com o alcool em chamas e o caneco de agua no chao. Por sorte a agua fervendo apagou o alcool em instantes e como o piso era de madeira eu poderia nao estar aqui agora para contar o caso. Nesse dia decidi jogar fora o fogareiro e as panelas. Estava decidido. Nao iria cozinhar mais.

O tempo extra e o dinheiro que tive que gastar com hospedagem e medicamentos fez com que eu tivesse que alterar novamente o roteiro. Agora eu tinha 170 Pesos argentinos e como meu cartao de credito seria usado pra passagem de volta, eu tinha 2 opcoes.

1. Ir até Calafate para conhecer os glaciares e de là encerrar a viagem e voltar pra casa. Mas a passagem me custava tipo 75 pesos e nao teria 1 centavo p comprar uma pipoca por lá.

2. Seguir para o sul, já que Rio Gallegos estava á 560km de Ushuaia e estar a uma semana de casa foi um pensamento muito tentador.

Com meus 170 pesos (145 reais) teria que sobreviver por uma semana entao teria que acampar 90% dos dias para economizar e comer somente o necessario.

Ao procurar por passagens, o carnaval brasileiro me fez ficar com medo de nao conseguir passagens de volta, e acabei comprando as passagens pra 1 semana depois (26/02).

Com mais essa alteracao, eu seguiria direto pela ruta 3 até Ushuaia e teria 7 dias para fazer os 560km restantes atè o destino final. Essa alteracao reduziria de 2300km para 1850km a minha viagem. Mas agora eu já estava decidido a ir embora. E ia pedalando e acampando e seguindo a cancao e entao segui para o sul e nada me impediria de chegar.

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Rio Gallegos - Estreito de Magalhaes

Estava 100% de novo com o descanso. Acho importante essas paradas em uma cicloviagem. Para manter o espirito e o astral por cima da carne seca. No meu caso eu vivo um ciclo, onde apos um descanso estou entusiasmado e o rendimento fica bem acima do esperado. Nesse ponto esquecemos das pernas que fazem o seu trabalho sozinhas. Mas com quatro dias em media, quando sinto que estou cansado e me vem aqueles pensamentos de "o que q eu estou fazendo aqui..." ou aqueles dias q dá vontade de jogar a bike no mato e pedir uma carona de volta pra casa. Nesses dias é que é preciso descansar. E recomecar todo o ciclo.

Tamo chegando

Com minha barra de energia marcando FULL em letras maíusculas eu saí de Rio Gallegos as 4 da manha, para ganhar tempo, já que conversando com os locais chove somente no final da tarde e com 5ºC tudo o que eu nao queria era me molhar.

Montei o kit picolé com 1 segunda pele, 1 camisa de ciclismo, 1 blusa de moleton, 1 corta vento. 2 calcas, 2 pares de meia. e coloquei pela primeira vez, meus 3 pares de luvas :D

Com 6ºC e Chuva, Eu venderia minha alma por um chocolate quente

O dia prometia ser interessante cruzando o estreito de magalhaes, e iria pela primeira vez na vida deixar o continente americano. Esse pensamento me encheu de animo.

Cheguei a fronteira da integracao Austral Argentina / Chile com 70km por volta das 9:30. E aí comecaram as coisas a dar errado. Era sexta feira, e o pior dia para atravessar a fronteira. quando cheguei vi a fila de carros e onibus na imigracao que devia ter 1km. De bike fui na boa furando fila, apesar de alguns protestos, mas nao era justo que o todos esperassem dentro do carro com calefacao enquanto eu ficava do lado de fora com uma garoa fina e temperatura de 7 graus. Quando cheguei perto da aduana e imigracao, perguntei se poderia passar direto pq eu estava de bike. Mas precisava registrar a saida da argentina e enfrentar a fila la dentro que estava dando voltas e voltas. Fiquei por umas 2 horas na fila esperando a minha vez, e quando fiquei realmente livre, tive que parar para tirar algumas fotos com os policiais fronteiricos e estavam me chamando de maluco. Ae juntaram os turistas e ficaram todos pedindo pra tirar foto com a bicicleta carregada. Me senti um macaco no zoologico.

O desembaraço aduadeiro e imigracao. Nao há filas exclusivas para ciclistas. :D

Fiquei feliz quando consegui me livrar dos turistas CVC e suas cameras fotograficas. Mas depois de ingressar no Chile, 1km depois tinha a aduana Chilena e tive que fazer tudo de novo. Mais duas horas perdidas. Dessa vez me pediram para retirar todos os pertences da bike e desmontar tudo foi um saco. Eu ignorei o formulario de registro de mercadorias de origem vegetal e animal, pois sao proibidas de ingressar no chile, por causa da febre aftosa e da mosca da fruta. Quando o policial encontrou 3kg de laranjas e maças ficou bastante nervoso e disse que devia ter declarado na ficha de entrada. Iria confiscar tudo, expliquei que era somente o que eu comida durante o dia. Mas nao teve jeito, ele permitiu que eu comesse algumas maças ali mesmo pra eu nao perder tudo. Terminando a revista, ele encontrou a faca de caça que meu amigo Juliano me emprestou para a viagem. Era uma faca estilo Rambo, onde eu usava quase o dia inteiro descascando laranjas e essas coisas (Foi mal ae Juliano, te compro outra quando eu chegar). Apesar da extrema educaçao do policial e de me pedir desculpas por umas 20 vezes, eram as leis e como eu nao havia declarado a faca iria ficar confiscada. Ao sair dali fiquei com aquilo na cabeca e ficava imaginando os policiais descascando minhas laranjas com a minha faca. hahahaha

Pretendia fazer 170km até o fim do asfalto em Cerro Sombrero, no Chile. Mas o atraso na aduana me levou bastante tempo. Dali até a balsa que atravessava o estreito de magalhaes ainda faltavam 65km e ja eram 4 horas da tarde. Mas o tempo agora estava aberto e fazia sol. Com 13ºC eu ja estava achando que ia dar praia :D. Mas o vento, como se quisesse me recompensar pelas dores de cabeca soprou a favor como nunca tinha feito na viagem inteira. Pude fazer os 65km e 2 horas e meia.

Aguardando pela balsa

Mas o vento estava muito forte, e ao chegar na balsa para a travessia, ela estava ancorada no meio do estreito, e nao atravessaria até que o vento melhorasse. Segundo o oficial, o vento estava a 65 nós com rajadas de 100 nós, algo como 120km/hora. E a balsa só atravessa com vento máximo de 35 nós.

O jeito foi esperar. E quando comecou a anoitecer, nao havia previsao de retorno do funcionamento da balsa. Entao decidi ficar por ali mesmo e montar acampamento. Com todo aquele vento e o frio que ja fazia, 9ºC procurei os oficiais da marinha que tem um posto ao lado da balsa para monitorar as condicoes do vento e patrulhar as aguas do estreito. Perguntei se poderia abrigar-me dentro das instalacoes para me abrigar, apesar de ter sido bastante simpatico, o marinheiro nao poderia deixar que eu ficasse dentro da base, porque ja havia negado naquele mesmo dia ha umas 20 pessoas que estavam aguardando tambem na fila dos barcos. Eu poderia montar minha barraca do lado de fora da base junto aos muros para me esconder um pouco do vento. E poderia usar o banheiro e poderia me ceder agua quente e lenha.

Mi casa, su casa

Foi a noite mais fria que passei na viagem. Foi bastante dificil montar a barraca com o vento, e durante a noite bati o recorde dentro da barraca com 2ºC. tive que vestir todas as minhas roupas de frio, e usar os 2 sacos de dormir. Enrolei as duas toucas de la nos pes e prendi com fita, ja que minhas meias haviam ficado pra tras em um acidente intestinal na beira da estrada.

O melhor do frio, temos coca gelada a qualquer hora do dia ou da noite

As 3 da manha, o marinheiro abriu a minha barraca e me acordou. Primeiro quase me matou de susto. Mas depois de chamou pra tomar um mate quente la dentro, ja que agora soh ele estava la e a balsa tinha voltado a funcionar. Agora eu temia que ele fosse um marinheiro gay no estilo village people em YMCA. Mas me ajudou a arrumar tudo no acampamento pq ae eu ja nao queria voltar pra barraca. Esperei a balsa voltar a funcionar e ele ainda me conseguiu que colocasse a bike em cima de um caminhao para nao pagar a taxa de 25 pesos para eu+bike atravessar na balsa.

 

O barquinho q atravessa o estreito de guimaraes, cabem só 20 carretas ae...

Atravessei as 7 da manha, chateado por ter perdido 1 dia. E ao contar ao caminhoneiro, ele disse que poderia me levar até a proxima cidade, pq de là iria descarregar e retornar. Ganhei 65km até Cerro Sombrero do que seria um trecho muito frio e de ripio.

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Cerro Sombrero, Chile - San Sebastian, Argentina

Em Cerro Sombrero havia um restaurante no estilo velho oeste, onde havia algumas motos voltando de ushuaia. Eu entrei e apesar do ser 08 da manha estavam servindo uns pratos quentes. Um quarto de cordeiro com batatas cozidas e sopa saìa por 25 pesos e vi que isso me alimentaria por 2 dias. Com a pança cheia esperei um pouco pra sair e pedalar. Percebi que os motoqueiros eram Brasileiros (como tem nego chato no mundo), mas eu nao tava muito afim de papo esses dias. Quando tava saindo um deles me chamou e perguntou sobre a viagem e tal. Ae ficaram me chamando de heroi, mas nun tom de chacota, me pareceram bebados. Me ofereceram uma cerveja, mas neguei dizendo que nao bebia e que tinha que seguir viagem. Eu tinha ainda 80km de ripio mais 20km de asfalto atè a proxima cidade e o tempo tava ameacando chuva.

Cordeiro cozido com batata no café da manha, ueba

Com uns 20km pedalados passou um outro motoqueiro por mim... um gaùcho muito gente boa. Conversamos por uns 20 minutos, ele acabara de se separar e ia viajar atè ushuaia e de là atè o Alaska. Ficou interessado sobre como era a vida viajando de bike, perguntou o q comiamos e tal. Falei q tava sentindo falta do miojo. Ele se foi e voltou nuns 20 minutos, com um hamburger e uma coca pra mim. Acho que ele pensou q eu tava passando fome e tal hahaha.. mas aceitei e agradeci imensamente. Peguei o contato dele. Guardei o hamburger e a coca pra comer de noite na barraca.

Comecou a chover, e agora eu tinha que correr contra o tempo. Nao havia nada na estrada de ripio atè a fronteira, onde eu deixaria o chile e voltaria a argentina. O tempo é tao doido por aqui, que mesmo com a chuva estava fazendo agora 18ºC e a chuva estava mais quente que o vento. Ainda nao descobri uma forma de pedalar sem me molhar, o corta vento e o anorak me fazer ficar molhado de suor com uns 20 minutos de pedal, e fica dificil de pedalar com isso pregado no corpo. Na chuva a melhor combinacao tem sido mesmo somente a camisa de ciclismo e os manguitos.

Cheguei por volta das 19:00 no paso fronteiriço só que dessa vez nao havia ninguem na fila e o andamento foi rapido e nao gastei mais do que 10 minutos pra passar 15km depois havia a fronteira argentina de novo. E dessa vez um dos policiais de fronteira, estava trabalhando na fronteira que eu havia passado 2 dias antes. E fez uma festa quando me viu. Me trouxeram café com leite quente e me emprestaram uma toalha pra me secar. Ate a proxima cidade faltavam 10km mas me disseram pra ficar ali mesmo e aceitei sem pestanejar. Montei a barraca do lado de fora do posto, mas logo me disseram pra dormir la dentro. Dormi deitado nun sofá que me pareceu ser a melhor cama do mundo. Como nao havia banho quente e tinha tomado chuva a tarde toda, decidi ficar sem banho mesmo.

O Alvorecer na minha casa

Nao foi possivel carregar minhas pilhas ali, e a bodega que vendia pilhas só tinha pilhas comuns a 20 pesos. Depois que roubaram minhas pilhas eu só estava com 2 pares de pilhas recarregaveis, nao estava fazendo tanta falta pq com a chuva nao pude tirar muitas fotos, e na proxima cidade eu poderia recarrega-las ou comprar pilhas alcalinas.

Pra presentear o dia inteiro pedalando sob chuva, um arco iris me recepcionou

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"Adiós Muchachos compañeros de mi vida"

" E você? O que é pra você viajar? Qual é a sensação de estar em movimento, de estar "de passagem" ? João Guimarães Rosa escreveu duas frases que resumem muito bem o que significa viajar para mim: - "O real não está nem na saída nem na chegada: ele se impõe pra gente é no meio da travessia" e  "O rios não querem chegar a nenhum lugar, eles só querem ficar mais largos e profundos" .

A música e a poesia são duas coisas que fazem parte das minhas viagens. Na verdade, as viagens ficam registradas, além das fotografias, na minha memória como filmes, não daqueles que a gente vê em casa, mas daqueles que a gente vê no cinema, naquela tela gigante com som digital, no escuro.

Em uma dessas viagens, ouvi de alguém, que os melhores momentos não podem ser fotografados. Muitas vezes prefiro não tirar certas fotos, pois apesar de todos os recursos disponíveis, sempre acho que faltarão sons, palavras, resoluções para expressarem o momento.

Pra mim não existe sensação melhor do que descobrir novos lugares, conversar com outras gentes, mudar de clima, provar outros sabores, ver novas paisagens, fazer as pazes com o tempo, ver o sol nascer, o pôr-do-sol, a lua chegar, as estrelas brilharem, banho de cachoeira, os pés no chão, a massagem das ondas, o balanço do mar, a limpeza da chuva, o beijo do vento, o calor do fogo, o abraço do rio ; tudo isso pra mim é viajar, tudo isso para mim é viver. "

Texto de Patricia Delgado


 


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San Sebastian - Rio Grande

Chuva e frio ja era rotina

Era mais um dia de chuva, resisti bravamente a vontade de ficar ali com os policiais da fronteira mais um dia esperando a chuva passar. Mas ainda faltavam 300km e um dia que eu perdesse ali poderia ser 1 dia a mais conhecendo Ushuaia. Entao segui as 09:00 apos um cafe da manha violento com os policiais, que me pediram pra contar como foi a viajem e tal. E engracado aqui na fronteira sempre perguntam se fui mais bem tratado pelos argentinos ou pelos chilenos. E claro que sempre faco o papel politico :D

Com chuva logo terminei os ultimos 9km de ripio e agora pra frente era só asfalto atè ushuaia. O ripio aqui tinha uma qualidade impressionante, melhor que muitas estradas asfaltadas no Brasil. Estava calculando que em 3 dias chegaria em ushuaia. E teria 1 dia inteiro pra passear pela cidade e um dia pra preparar as coisas pra viagem. Fiz 95km a beira mar, com chuva e apesar do pneu traseiro furado, tudo rendeu bem com o terreno plano e sem vento. A chuva era bem fina e nao chegava a incomodar e fazia cerca de 12ºC. Depois de algum tempo a gente acaba se acostumando com o frio. Mas a paisagem ja dava sinais de mudanca e ja era possivel ver as montanhas no horizonte. Apesar do dia cinza e feioso eu tava gostando.

Simbora, pq tava ficando bonito de novo

Cheguei cedo a cidade de Rio Grande, que é muito bonita, por sinal. Com casas no estilo europeu. Logo na entrada da cidade vi uma lan house, que cobrava 2,50 pesos a hora. O menor preco até entao em toda a viagem. Estava ha 3 dias sem dar noticias para a familia, e entao decidi dar uma paradinha ali mesmo, pra depois procurar um camping ou um albergue pra ficar. A bike logo despertou interesse do dono da lan house. Ae quando perguntei se era permitido acampar pela rua e tal (estava usando essa isca ha alguns dias) ele falou que eu poderia dormir na garagem ali mesmo da lan house, mas teria que sair antes das 07 da manha para que o pai dele guardasse o carro ali. Fiquei esperando o convite pra tomar um banho ou algo assim, mas ja estava bom demais. Ficaria protegido do vento e da chuva. Fiquei na lan house ate umas 23:00 e fui dormir. Decidi nem montar a barraca. Inflei o colchao ali mesmo no chao e apesar da espectativa dos 2 dias seguintes, dormi rapidamente.

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Rio Grande - Tolhuin

Dia preto e preguiçoso

Acordei as 03 e nao consegui mais dormir. Como nao tinha montado a barraca, ventou muito e fez muito frio. Fiquei enrolando ate as 06 quando consegui sair. Como nao havia chegado ninguem, deixei um bilhete agradecendo pela acolhida e segui caminho. Faltavam agora 2 dias de pedal e 216km para chegar a ushuaia e eu ja tava ansioso.

Tinha montado o setlist de MPB para os dois dias seguintes pra matar um pouco a saudade de casa, e distrair um pouco na estrada, ja que pelo quinto dia seguido eu saia debaixo de chuva e frio. Achei q Sao Pedro estava sendo injusto comigo, e que eu pegasse os ultimos dias na montanha com chuva seria uma tristeza danada. Ja tava querendo alterar o roteiro pra gastar 3 dias ao inves de 2. So pra nao perder as fotos do Paso Garibaldi que vinham me falando de 1 semana pra ca.

Foi um dia muito feio e eu enrolei bastante. Dessa vez tinha algumas estacoes de gas natural na beirada do caminho e eu parava em cada uma delas pra me abrigar da chuva. Me secava com uma toalha, trocava a camisa e seguia de novo. Como o dia prometia 100 exatos, passei a contar cada km pedalado em %... 20km = 20% e assim foi todo o dia. Acho q foi o dia mais longo que passei na estrada durante todo o caminho. Mas faltando uns 15km peguei algumas subidas mais fortes, o que nao acontecia ha mais de 10 dias na estrada. Mas depois de certo tempo nas estrada, as pernas trabalham sozinhas fazem o seu servico e as vezes nem percebemos que estamos pedalando. Depois de 20 dias eu sentia que estava muito melhor no condicionamento fisico do que estava no dia em que iniciei.

Cheguei em Tolhuin e assim que entrei na cidade a chuva parou. Parecia sacanagem. Mas um arco iris me recepcionou e logo fui procurar uma hospedagem. Encontrei o hostel da D. Alejandra que me ofereceu um quarto por modicos 40 pesos com desayuno. Pude descansar em uma cama quentinha e aproveitei o aquecedor dentro do quarto pra fazer um toddy quente.


Alojamiento de Dona Alejandra. 5 Estrelas

A sensacao de estar chegando já me aliviava, mas da mesma forma me sentia triste por estar acabando. Mas é sempre assim em uma cicloviagem. Faltavam apenas 110km até ushuaia, e na manha seguinte seria a ultima vez que prepararia as coisas p pegar estrada. O tempo nao estava ajudando e caso estivesse com sol, eu poderia fazer o trajeto em dois dias para aproveitar um pouco mais. Mas fiquei com medo de ocorrer um imprevisto e perder o voo de volta pra casa.

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Tolhuin - Ushuaia

Ai ai ai ai, esta chegando a hora

Acordei com uma preguica danada. Ja fazia algum tempo q nao dormia em uma cama confortavel e apesar de ter programado pra sair as 05 da manha soh consegui levantar da cama as 07. Nao dormi direito ansioso pelo ultimo dia, tive alguns pesadelos idiotas mas eu aproveitei a falta de sono na madrugada pra arrumar minhas coisas pro dia seguinte. Dormi com a roupa de pedalar e de manha soh pegaria a bike com tudo montado e seguiria na estrada. Fiquei alguns momentos parado olhando pra aquela bike toda montada, com toda a bagagem prontinha pra sair. Seria a ultima manha fria com os dedos doendo de frio arrumando bagagem.


Lago Fagnano

Apesar do cafe da manha ser servido apenas das 08 em diante, encontrei uma bandeja com tudo pronto na porta do meu quarto. Mais uma vez deixei um bilhete agradecendo pela gentileza e sai rumo ao fim da viagem.

O Pneu traseiro estava vazio de novo. Ha uns 3 dias esse pneu esta com um furo bem pequeno ou um vazamento na valvula, o que me obriga todo manha a calibra-lo de novo. Como de dia dava pra rodar o dia inteiro, tava com preguica de procurar o furo pra remendar. Com o ceu preto e chuva, quase decido ficar mais um dia em Tolhuin, mas estava disposto a chegar de uma vez. Muito frio durante as primeiras horas da manha e foi dificil me aquecer. Parecia que seria mais um dia monotono de muita chuva e poucas fotos.

Lago Fagnano, agora com équiummmm

Por volta das 10:00 o tempo deu uma melhorada e o sol resolveu aparecer. E como se fosse combinado, o tempo se abriu mostrando toda a beleza do lugar. Como em Bariloche o ambiente era de muitos lagos, rios e montanhas. Joguei fora os 4 litros de agua que estavam guardados na mochila pq havia muitas fontes de agua na margem da estrada. O dia se revelou como o mais bonito de todos, e foi o que tirei mais fotos. As 11:00 da manha eu tinha pedalado apenas 35km e ainda faltavam 75.


O tempo abriu e os cerros nevados estavam de volta

A estrada que liga Tolhuin à Ushuaia reune todas as rotas de quem vem descendo pela America do Sul em direcao a Ushuaia. E pude encontrar muitos ciclistas do mundo inteiro finalizando suas viagens. Encontrei pela manha, Rupert um alemao que estava vindo pelo chile e pela carretera austral. Gente boa e pedala muito. Estava desde dezembro na estrada. Pedala e fuma ao mesmo tempo, um cigarro atras do outro, nem para a bike pra acender o cigarro, com uma tecnica impressionante. hahhaha. Logo depois conheci um casal de franceses que por volta dos seus 50 e poucos anos de idade já estavam com 6 meses de estrada e vinham desde a Colombia, passando por varios paises. Me impressionou a vitalidade dos dois, que apesar de irem bastante devagar e com muitas paradas tinham um vigor impressionante. Me impressionou o equipamento e as bikes dos gringos. Sao todas bikes proprias pra cicloturismo. Os alforjes da marca Ortileb era usado por todos. Bastante praticos e funcionais. Mas ficaram admirados com meu trailer tb.

Ruperth o alemao voador

O Casal de franceses

Como cada um tem o seu proprio ritmo, fica dificil pra todos andarem juntos e durante todo o dia uma hora um passava na frente, e parava na estrada ae passavamos por eles e logo estavamos todos juntos novamente.


O Lago Escondido, olha a pequena montanha q eu ia subir mais tarde

Por volta do KM 50 cheguei ao famoso Lago Escondido, que me disseram que seria uma das mais belas paisagens de toda a viagem. Mas como nada vem de graça, foram 15km subindo por quase 3 horas pra apreciar toda a beleza do vale do Lago Escondido, um pouco mais acima estaria o Paso Garibaldi, onde a partir dali despencaria por 9km até o outro lado. As mais belas fotos e paisagens estavam guardadas pro ultimo dia e foi dificil deixar o local.

Primeiro Mirador do Lago Escondido 8km morro acima

Vista do Paso Garibaldi 15km morro acima

Momento de reflexao. O perigo estava no vento.

Apos despencar os 9km montanha abaixo, todos se dispersaram de novo e dessa vez eu ja estava querendo ficar um pouco sozinho. Ouvindo um Milton Nascimento, um Tim Maia um Chico Buarque jà me sentia voltando pra casa. Me peguei por vàrias vezes cantando alto com meus fones de ouvido, o que causava algum espanto para os automoveis em sentido contrario. Mas numa especie de transe, eu jà nao queria mais parar, já nao sentia cansaco, fome frio ou calor. Estava sentido que de alguma forma eu estava em casa. Havia chegado ao objetivo, mesmo que de formas nao tao lineares como no planejamento inicial.

Faltando uns 25km passei por um comedor, ou um restaurante, hehehe... estava passando a liga dos campeoes Inter x Manchester. Com a diaria na cabana com tv a cabo para ver o jogo por 60 pesos. Fiquei tentado a ficar por ali mesmo. Mas so faltavam 25 e seria extremamente sem graca pedalar apenas 25 km no dia seguinte, entao tomei uma agua gelada e molhei a cabeca na bica, ae voltei pra estrada.

A Francesa sangue no zòio. Deu uma bina kilometrica em todos na subida.

Passei pelos outros cicloturistas que descansavam e comiam na beira da estrada, eles ja se estavam juntos fazia 2 semanas e ja tinham fortalecido o vinculo e a amizada. Passei reto acenei e segui caminho. Esse momento era só meu e por incrivel que pareça eu queria um pouco de solidao, aquele momento era só meu. Me sentia leve e forte. Faltavam apenas 10km e pensei um pouco em tudo que passei desde o inicio em Bariloche a 1800km atrás. Pensei nos dias duros e nas noites solitárias. Pensei em minha esposa que foi minha equipe base no Brasil resolvendo todos os meus problemas durante o caminho e que nao foram poucos. Pensei tambèm que na proxima manha eu nao estaria acordando preguicoso e com frio. Nao ia presenciar o cansaso, a solidao, o frio, a fome, a sede, o vento. A tristeza de terminar o caminho só é amenizada pela certeza de que me tornei um ser humano mais forte, mais afiado, mais certo de meus limites e de que é sempre possìvel superá-los. Esse novo ser interior ganhou um pouco mais de experiencia e agora repousara por um tempo, pelo menos ate a proxima viagem...

Faz o jóia ae

Tamo ae... mais uma pro Curriculum Vitae


cesareregina wrote on Sep 16, '09
Temos planos de nos aventurar por lá um dia destes....
Que experiência....
Um abraço
Cesar e Regina - Santo André - SP
crbio144 wrote on Jun 13, '10
Olá...tudo bem?
Estava vendo seu site e estou pensando em ir a caleta Olivia agora em Julho....mas nao sei que aeroporto é o mais proximo.....será que vc poderia me ajudar.....e como é aquela cidade....é boa....p passar uns dias de descanso.
Grata.
Sandra
tyronemenezes wrote on Jun 14, '10
olá.. provavelmente o aeroporto mais próximo é o de comodoro rivadavia cerca de 80km... a cidade n tem muitos atrativos... a areia da praia é de pedrinhas... a cidade me parece girar em torno de uma empresa de petroleo... mas fiquei apenas 2 dias por lá e essa pode ser uma impressao superficial...
eryckmachado wrote on Jun 23, '10
Tyrone, belíssima viagem! Foi lendo seu relato que decidi que queria fazer isso tb e já começo a me preparar para no ano quem vem cair na estrada. Queria trocar umas idéias contigo, pegar umas dias (além das várias no blog...). Posso te adicionar pra depois a gente se falar por email? Abraços.
baxinha123 wrote on Mar 6, '11
SÃO 3:30 DA MANHA DE UM SABADO DE CARNAVAL, E estou aqui nas pesquisas para minha viagem de bike a patagonia..... obrigado por cada palavra!! eu ri muuuuuuuuuuuuito com vc!! kjkkkkkkkk os acontecidos e cada momento foi bem verdadeiro, adorei!! parabens pela conquista!!
eu parto dia 1° de abril com mais 2 loucos/aventureiros de foz do iguaçu ate ushuaia... mas temos 5 meses para rodar... sera o verdadeiro ciclonomade em ação rs
abraços! e continue escrevendo ja vou te indicar para varios!!
Pãmella Marangoni - MAracaju _MS 22 anos, arquiteta e urbanista
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